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Rescisão do desenvolvedor PJ: o que dá para cobrar

Se você era PJ no papel mas tinha gestor, daily e sprint, dá para discutir o vínculo de emprego e o que entra na saída.

18 de setembro de 20267 min de leituraAtualizado por Dr. Jorge Lopes Bahia

Sim, o desenvolvedor contratado como PJ pode discutir a rescisão quando, na prática, trabalhava como empregado. O que vale não é o contrato assinado nem a nota fiscal emitida, e sim como o dia a dia acontecia: se havia gestor, horário, daily, sprint e férias pedidas no sistema da empresa, existe base para pedir o reconhecimento do vínculo. Reconhecido o vínculo, a saída deixa de ser apenas o fim de um contrato entre empresas e passa a ser analisada com as regras do trabalho com carteira assinada.

Era PJ no papel, mas trabalhava como empregado?

A Justiça do Trabalho olha a realidade do trabalho, não o rótulo. Quando a empresa contrata por CNPJ alguém que se comporta como qualquer outro do time, isso é chamado de pejotização, ou seja, a contratação de um empregado disfarçada de contrato entre empresas. O que pesa na análise é a presença dos elementos do emprego: trabalho feito por você mesmo, sem poder mandar outra pessoa no seu lugar (o que se chama pessoalidade), com frequência, com ordens de um chefe e com pagamento certo.

  • Você tinha gestor direto e participava de daily, planning e retrospectiva como os CLT do time
  • O trabalho seguia sprint, board e prazos definidos pela empresa, não por você
  • Havia horário a cumprir, ou pelo menos janela obrigatória de disponibilidade
  • Você pedia férias ou folga no sistema interno da empresa e alguém aprovava
  • Usava crachá, e-mail corporativo, notebook e acessos fornecidos pela empresa
  • Recebia valor fixo todo mês, com a nota fiscal sempre no mesmo dia e no mesmo valor
  • Não podia mandar outra pessoa no seu lugar nem tinha outros clientes de fato
Guarde isto

Antes de perder o acesso, salve o que mostra a rotina: convites de daily e de 1:1 na agenda, prints do board com tarefas no seu nome, conversas com o gestor, o pedido de férias aprovado no sistema de RH, o e-mail corporativo e o organograma onde você aparece no time. Envie cópia para o seu e-mail pessoal.

O que pode ser discutido se o vínculo for reconhecido

Reconhecer o vínculo significa a Justiça do Trabalho entender que, apesar do CNPJ, o que existia era uma relação de emprego. A partir daí, a saída passa a ser discutida com as regras de quem trabalha com carteira assinada. Nada disso é automático: cada pedido é analisado com as provas do caso, e o resultado depende da decisão.

Item da saídaComo aparece na discussão, sem garantia de resultado
Aviso prévioPode entrar no pedido, a depender de como o contrato foi encerrado
FGTSPode ser discutido o recolhimento do período em que não houve registro
Multa do FGTSPode ser pedida quando a saída é discutida como dispensa por iniciativa da empresa
FériasPodem ser discutidas, incluindo o adicional previsto para quem é empregado
13º salárioPode ser discutido em relação ao período reconhecido
Carteira de trabalhoPode ser pedida a anotação das datas de entrada e saída e da função
Seguro-desempregoNão é consequência automática: depende do registro do período e das regras do programa na data do pedido
Pedido de demissao

O que acontece com o que já foi pago por nota fiscal

O dinheiro que você recebeu por nota fiscal faz parte da discussão, e é por isso que o histórico de pagamento importa tanto. Quanto foi pago, com que frequência e em que datas ajudam a mostrar como era a relação de trabalho. Como esses valores serão considerados no cálculo é definido no caso concreto, a partir dos documentos e da decisão, então não existe conta pronta para dizer de antemão quanto se pode cobrar.

Vale reunir, sem tirar conclusão sozinho, o que documenta o contrato: o valor realmente recebido mês a mês (às vezes diferente do que está escrito no contrato), os meses em que o pagamento atrasou, as despesas que ficaram com você por causa do CNPJ, como contador, impostos e equipamento, e os períodos em que você parou de trabalhar sem receber. São documentos que podem ser relevantes na análise, e o aproveitamento de cada um depende do caso.

Cuidado

Não assine termo de quitação, distrato ou recibo de "encerramento de contrato de prestação de serviços" sem ler com calma o que está escrito. Também evite apagar conversas, sair dos grupos ou devolver o notebook sem antes salvar o que comprova a rotina. Prova perdida é direito difícil de mostrar depois.

Fui demitido sendo PJ: o que fazer agora

  1. Salve o históricoBaixe conversas do Slack, Teams ou WhatsApp com gestor e RH, prints do board, convites de reunião e o aviso de encerramento.
  2. Reúna o financeiroJunte todas as notas fiscais emitidas, os comprovantes de pagamento e o extrato da conta onde o dinheiro caía, mês a mês.
  3. Liste o períodoAnote a data do primeiro dia, a data do último, a função real que você exercia e o nome de quem dava as ordens.
  4. Peça por escritoSolicite ao RH, por e-mail, a confirmação da data de início, da data de encerramento e o motivo do fim do contrato. Guarde a resposta.
  5. Anote testemunhasRegistre quem trabalhava com você e pode confirmar a rotina, inclusive quem já saiu da empresa.
  6. Confira o FGTS e o INSSConsulte o aplicativo FGTS e o Meu INSS para ver o que existe registrado em seu nome no período.
Rescisão indireta

PJ tem direito a FGTS?

Enquanto o contrato é de prestação de serviço por CNPJ, a empresa não recolhe FGTS, e por isso a conta costuma aparecer zerada no aplicativo. O FGTS do período só entra na conversa junto com o pedido de reconhecimento do vínculo de emprego, e depende dessa análise. O passo prático é simples: abra o aplicativo FGTS e o Meu INSS, veja o que existe registrado em seu nome e guarde os extratos, porque eles mostram exatamente o que não foi recolhido.

Vale lembrar que ser PJ não é ilegal por si só. O desenvolvedor que atende vários clientes, define o próprio horário, cobra por entrega e assume o risco do negócio é prestador de serviço mesmo. A discussão aparece quando o CNPJ existe só no papel e a rotina é de empregado.

Perguntas frequentes

fui demitido sendo pj, o que posso cobrar?

Não dá para dizer de antemão. O primeiro passo é reunir a prova da rotina e do pagamento, porque é ela que sustenta o pedido de reconhecimento do vínculo de emprego. Com o vínculo reconhecido, os itens de uma saída de empregado passam a ser discutidos, cada um analisado com as provas do seu caso.

pj tem direito a fgts?

Como PJ, a empresa não recolhe FGTS, então normalmente não existe saldo em seu nome. O FGTS do período só passa a ser discutido se houver o reconhecimento do vínculo de emprego, e isso é decidido caso a caso. Consulte o aplicativo FGTS e guarde o extrato do período.

quanto tempo preciso ter trabalhado para pedir o reconhecimento?

Não existe tempo mínimo de casa. O que importa é a forma de trabalho, ou seja, se havia ordens de um chefe, trabalho feito pessoalmente por você (sem poder mandar outra pessoa no seu lugar), frequência e pagamento certo. Contratos curtos também podem ser discutidos, embora os valores envolvidos sejam menores.

o que acontece se eu ainda estiver trabalhando como pj?

É possível discutir o vínculo com o contrato em andamento, sem esperar a saída. Nesse caso, o cuidado maior é com a organização das provas e com o registro da rotina ao longo do tempo. Uma conversa sobre o caso ajuda a entender o momento certo.

preciso fechar meu cnpj antes de discutir o vínculo?

Não é exigido fechar o CNPJ para discutir o reconhecimento. A existência da empresa em seu nome não impede a análise, porque o que se examina é como o trabalho acontecia na prática. Guarde os documentos de abertura e os comprovantes de despesa do CNPJ.

Quer entender o seu caso de PJ?

Traga seus contratos, notas e conversas e vamos analisar juntos o que a sua rotina de trabalho mostra.

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OAB/RJ 159.842 · advogado desde 2007, 19 anos de advocacia trabalhista no Rio de Janeiro · articulista do Migalhas

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