A lei permite a parceria, mas exige contrato escrito e cláusulas obrigatórias. Horário, ordem e exclusividade puxam o caso para o emprego.
A parceria de salão pode virar vínculo de emprego quando o salão define o seu horário, dá ordens, cobra exclusividade e controla suas faltas. A lei permite o modelo de parceria, mas ele depende de formalização correta e de autonomia real no dia a dia. Quando o contrato diz uma coisa e a rotina mostra outra, a Justiça do Trabalho analisa as provas e os elementos que caracterizam o emprego antes de decidir, e o reconhecimento não é automático.
A Lei nº 13.352/2016, conhecida como Lei do Salão Parceiro, alterou a Lei nº 12.592/2012 e criou o contrato de parceria entre salões e profissionais de beleza: cabeleireiros, barbeiros, esteticistas, manicures, pedicures, depiladores e maquiadores. Em 28 de outubro de 2021, o Supremo Tribunal Federal julgou a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5625 e decidiu que esse contrato de parceria é constitucional. Ou seja, o modelo existe e é legal. O mesmo julgamento fixou o limite dele.
É constitucional a celebração de contrato civil de parceria entre salões de beleza e profissionais do setor, nos termos da Lei 13.352/2016. É nulo o contrato civil de parceria referido quando utilizado para dissimular relação de emprego de fato existente, a ser reconhecida sempre que se fizer presente seus elementos caracterizadoresTese aprovada pelo Plenário do STF no julgamento da ADI 5625, em 28/10/2021
Traduzindo: se a parceria é usada para disfarçar uma relação de emprego que já existe na prática, o contrato é nulo, quer dizer, não produz efeito. Nesse caso, entram em cena os artigos 2º e 3º da CLT, que descrevem quem é empregador e quem é empregado, e o vínculo é reconhecido com registro em carteira, férias, 13º salário e FGTS. A própria tese diz que o emprego é reconhecido quando estão presentes os elementos que o caracterizam, então tudo passa pela prova de como era a rotina.
O que pesa não é o nome do contrato, é o dia a dia. A Justiça do Trabalho olha se existe pessoalidade (só você pode fazer aquele trabalho), continuidade, pagamento e, principalmente, subordinação, que é trabalhar sob ordem e controle de outra pessoa. Estes são os sinais que costumam aparecer nos casos em que o vínculo foi reconhecido:

O maior risco é ficar sem prova. Não apague as conversas de WhatsApp com a escala e as ordens, não devolva o único comprovante de repasse que você tem e não assine documento em branco ou com data diferente da real. E lembre: assinar um papel chamado contrato de parceria não encerra a discussão, porque o contrato e a rotina são analisados juntos.
A Lei 13.352/2016 não aceita parceria de boca. O art. 1º-A exige contrato escrito. O § 8º desse artigo prevê a homologação do contrato pelo sindicato da categoria profissional e laboral ou por órgão competente do Ministério do Trabalho e Emprego, perante duas testemunhas. E o § 10 lista sete cláusulas obrigatórias, entre elas o percentual das retenções do salão, a obrigação do salão de reter e recolher os tributos devidos pela profissional, as condições de pagamento, os direitos quanto ao uso dos bens e ao acesso ao local, a possibilidade de rescisão, as responsabilidades com manutenção e higiene e a obrigação da profissional de manter a inscrição fazendária regular. A falta dessas formalidades não resolve o caso sozinha: ela costuma ser avaliada em conjunto com os sinais de emprego que aparecem no dia a dia.
| Como é o seu dia a dia no salão | O que isso costuma indicar |
|---|---|
| Não existe contrato escrito, só um acordo verbal de porcentagem | Falta um requisito básico da lei da parceria, que é analisado junto com a rotina |
| Contrato escrito, com as cláusulas exigidas e homologação | Reforça a tese de parceria válida |
| Você monta a própria agenda, recusa cliente e pode atender em outro lugar | Aponta autonomia, que é o centro da parceria |
| Escala, ordem, exclusividade e advertência do salão | Aponta subordinação, que é o centro do emprego |
| Você não guardou nenhum registro do que recebia | Dificulta mostrar valores e frequência, por isso vale reunir extratos e recibos |
Junte hoje o que já existe: cópia do contrato que você assinou, fotos da escala fixada na parede, prints do grupo de WhatsApp com a divisão de horários, comprovantes de repasse (Pix, extrato, recibo), nome e telefone de colegas e clientes que viram sua rotina e fotos suas no salão com data. Peça ao salão, por escrito ou por mensagem, a cópia do contrato de parceria e o demonstrativo dos repasses. Pedido por mensagem já fica registrado.

As decisões seguem a prova de cada caso, e vão para os dois lados. Em 1º de outubro de 2021, a 15ª Turma do TRT da 2ª Região reconheceu o vínculo de uma manicure porque não havia contrato formal de parceria nem observância da Lei 13.352/2016 (processo nº 1001482-22.2021.5.02.0010). Em 6 de julho de 2023, a 2ª Turma do mesmo tribunal manteve o vínculo de uma depiladora e micropigmentadora, considerando em conjunto as irregularidades formais do contrato e as características de emprego. Em 27 de dezembro de 2023, o TRT-11 reconheceu o vínculo de uma manicure. Em 20 de janeiro de 2025, a 2ª Câmara do TRT da 15ª Região reconheceu o vínculo de outra manicure porque o salão não cumpriu obrigações da Lei 13.352/2016, a começar pela formalização do contrato (processo nº 0010943-15.2023.5.15.0071). O outro lado também aparece, e é honesto dizer isso: em 18 de julho de 2025, a 4ª Turma do TRT da 3ª Região confirmou a decisão que negou o vínculo de uma cabeleireira, com base na autonomia dela e na validade do contrato homologado pelo sindicato, e em 22 de julho de 2025 o TRT-MG validou uma parceria e afastou o vínculo, destacando a autonomia da profissional como ponto decisivo (processo 0011050-57.2024.5.03.0039).
Cada decisão citada acima resolveu um caso concreto, com as provas daquele processo. Repare que os resultados são diferentes entre si: onde ficou demonstrada a autonomia, a parceria foi mantida; onde apareceram formalidades não cumpridas somadas a características de emprego, o vínculo foi reconhecido. Nenhum desses exemplos garante o mesmo resultado na sua situação, e é por isso que o que você guarda de prova importa tanto.
Depende de como é a rotina. Se você cumpre horário definido pelo salão, recebe ordens, não pode recusar cliente e é obrigada à exclusividade, a situação se aproxima do emprego, e o contrato de parceria pode ser considerado nulo. Se você tem agenda própria e autonomia real, a parceria tende a ser válida. Quem decide é o juiz, olhando o conjunto das provas.
A Lei 13.352/2016 exige contrato escrito, com cláusulas obrigatórias e homologação pelo sindicato ou por órgão competente do Ministério do Trabalho e Emprego, perante duas testemunhas. Em casos concretos, a falta dessas formalidades foi avaliada junto com características de emprego e levou ao reconhecimento do vínculo, como no julgamento do TRT da 15ª Região em janeiro de 2025. Sozinha, a falha formal não define o resultado.
Horário imposto pelo salão é um dos sinais mais fortes de subordinação, que é trabalhar sob ordem e controle de outra pessoa. Na parceria, a ideia é que você organize sua própria agenda. Quando o horário é do salão, e não seu, isso costuma pesar a favor do reconhecimento do vínculo.
Guarde cópia do contrato, prints de conversas com ordens e escalas, fotos do quadro de horários, comprovantes de repasse, extratos bancários e o contato de colegas e clientes que acompanhavam sua rotina. Anote também as datas de início e de saída. São essas provas que sustentam a sua versão.
Quando existe o contrato escrito com as cláusulas exigidas pela lei, a homologação prevista no art. 1º-A da Lei 13.352/2016 e, acima de tudo, autonomia real no dia a dia. Foi com base na autonomia e na validade do contrato homologado que o TRT de Minas Gerais e o TRT da 3ª Região afastaram o vínculo em casos julgados em julho de 2025.
O reconhecimento do vínculo faz incidir os direitos de empregado sobre o período trabalhado, o que inclui registro em carteira, férias, 13º salário e FGTS. O alcance depende do que ficar provado em cada caso, inclusive do tempo de trabalho reconhecido. Não existe valor certo antes da análise dos documentos.
Fale com nosso escritório e conte como é a sua rotina no salão, para entendermos juntos a situação do seu contrato.
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