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Apelido ofensivo no trabalho por doença: dá indenização?

Ser chamado por apelido que zomba de uma lesão ou doença não é brincadeira, e a empresa que deixa isso acontecer pode ser responsabilizada.

4 de setembro de 20267 min de leituraAtualizado por Dr. Jorge Lopes Bahia

Se você é chamado por um apelido que zomba da sua lesão ou da sua doença, isso pode ser reconhecido como dano moral, e a empresa pode ser condenada a indenizar. O apelido ofensivo no trabalho não deixa de ser ofensa porque a chefia diz que era brincadeira. A responsabilidade da empresa nasce do ambiente que ela tolera.

O caso do bancário chamado de "lerdinho"

Um bancário contratado em 1989 foi diagnosticado em 1998 com uma lesão ligada a esforços e movimentos repetitivos no serviço, o que os médicos chamam de LER/DORT. Quando o banco reduziu o número de empregados da agência, ele passou a fazer outras tarefas e teve dificuldade por causa da condição de saúde. Foi então apelidado de "lerdinho", e colegas cantavam para ele a música "devagar, devagarinho".

O guia completo sobre assédio moral no trabalho explica o tema do começo e lista os artigos relacionados.

O banco negou as brincadeiras e disse que o empregado nunca havia reclamado com o gestor. As testemunhas contaram outra coisa: as ofensas eram constantes e os superiores nunca chamaram a atenção de ninguém. Uma colega chegou a dizer que ele "não tem LER, mas lerdeza". O primeiro grau fixou R$ 10 mil de indenização, o Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (RJ) manteve, e a 3ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho aumentou o valor para R$ 20 mil, por considerar o primeiro valor desproporcional ao dano psicológico.

As empresas têm obrigação de proporcionar um ambiente de trabalho seguro e agradável, conforme a Consolidação das Leis do Trabalho e normas internacionais como as Convenções 155 e 187 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).Ministro Alberto Balazeiro, relator do caso na 3ª Turma do TST

Esse valor vale para aquele caso, com aquelas provas e aquela duração das ofensas. Cada história é analisada de forma própria, e não existe tabela de preço para dano moral. Outros casos noticiados envolvem apelidos como "piratinha", dirigido a uma trabalhadora cega de um olho, "aleijadinha", usado contra uma empregada que se afastava por problemas de saúde, e "tortinho", contra um trabalhador com escoliose (desvio na coluna). São situações específicas, cada uma com o seu desfecho, e não uma regra automática que se aplique a todo apelido.

Discriminacao no trabalho

Quando o apelido ofensivo no trabalho vira dano moral

Nem todo apelido é ofensa. O que costuma pesar na análise é a humilhação repetida e imposta contra a vontade da pessoa, ligada a uma lesão, uma doença ou uma condição do corpo.

  • O apelido zomba de uma doença, lesão ou limitação do corpo
  • É repetido, virou o modo como todo mundo chama a pessoa
  • É usado na frente de colegas, de clientes ou do público
  • A pessoa já demonstrou que não gosta, e continuou do mesmo jeito
  • Parte de chefe, gerente ou supervisor, ou acontece na frente deles sem que nada seja feito
  • A empresa sabe do que acontece e não toma nenhuma providência
Guarde isto

Rir na hora não significa que você concordou. Muita gente ri para não virar alvo maior. O fato de você não ter revidado nem batido de frente com quem ofendeu não apaga a ofensa.

"Era só brincadeira": por que isso não protege a empresa

A defesa mais comum é essa: ninguém quis ofender, era só o clima descontraído do setor. A intenção de fazer humor não afasta a responsabilidade quando a conduta atinge a dignidade da pessoa. No caso do bancário, o banco também alegou que ele nunca reclamou com nenhum superior, e isso não impediu a condenação, porque a obrigação de cuidar do ambiente é da empresa, não do trabalhador ofendido.

Quando o apelido parte da própria chefia, ou quando é notório no setor e a empresa deixa correr, a omissão dela entra na conta. Não é preciso ter feito reclamação formal ao RH para que essa omissão seja reconhecida, embora a reclamação formal ajude muito como prova.

Cuidado

O erro mais comum é apagar tudo depois da saída da empresa: deletar o grupo de WhatsApp, sair dos grupos de trabalho, jogar fora atestados e não anotar nomes. Existem outros caminhos de prova, como o depoimento de colegas que presenciaram e a reclamação registrada na empresa, mas cada documento perdido é uma peça a menos para contar o que aconteceu.

Acidente trabalho

Como juntar prova do apelido ofensivo no trabalho

  1. Anote os episódiosEscreva data, local, o que foi dito, quem disse e quem estava por perto. Faça isso no mesmo dia, enquanto a memória está fresca. Um caderno ou uma nota no celular já serve.
  2. Salve o que estiver escritoMensagens de WhatsApp, grupos do setor, e-mails, comentários em rede social interna. Tire print com data e hora visíveis e envie para o seu e-mail pessoal, para não perder o conteúdo se o celular sumir ou o número mudar.
  3. Registre a reclamação por escritoSe ainda está na empresa, leve o caso ao RH, ao superior ou ao canal de denúncia por e-mail ou pelo sistema interno. Peça o número do protocolo e guarde a resposta. Se a empresa não tomar nenhuma providência, esse registro ajuda a demonstrar depois que ela sabia do problema e ficou parada.
  4. Cuide da sua saúde e guarde os documentosRelatório médico, atestado, laudo psicológico, receita de medicação e comprovante de afastamento ajudam a mostrar o sofrimento e os sintomas. Peça sempre a segunda via e guarde tudo.
  5. Lembre quem viuFaça uma lista com o nome e o contato de colegas que presenciaram. Testemunha é uma das provas mais fortes nesse tipo de caso, foi o que aconteceu na decisão do bancário.

O que você pode buscar além da indenização

Além da reparação por dano moral, a humilhação repetida pode ser tratada como assédio moral, que é a perseguição continuada no trabalho. Em situações graves, isso pode abrir caminho para a rescisão indireta, que é quando o trabalhador pede o fim do contrato por culpa da empresa. Os efeitos desse pedido, inclusive quanto às verbas da rescisão, dependem de a Justiça reconhecer a falta grave no caso concreto, com base nas provas. É uma decisão delicada, e por isso vale buscar orientação sobre a sua situação antes de tomar qualquer medida, inclusive antes de pedir demissão por conta própria.

SituaçãoO que costuma pesar na análise
Apelido usado uma vez e cortado pela chefia na horaPeso menor, porque a empresa reagiu
Apelido repetido por meses ou anos, virou o nome da pessoa no setorPeso maior, pela duração e pelo alcance
Apelido criado ou usado pelo próprio gerente ou supervisorPeso maior, envolve diretamente quem representa a empresa
Ofensa feita na frente de colegas ou de clientesPeso maior, pela exposição pública
Trabalhador reclamou e a empresa não fez nadaPeso maior, pela omissão registrada
Existe laudo médico ou acompanhamento psicológico do períodoAjuda a demonstrar o sofrimento e os sintomas

Se você está vivendo isso agora, comece pela prova. Anote hoje o que aconteceu esta semana, salve as mensagens e guarde seus documentos médicos. Depois é possível avaliar com calma qual caminho faz sentido no seu caso.

Perguntas frequentes

tenho direito a indenização por apelido ofensivo no trabalho?

É possível pedir indenização por dano moral quando o apelido zomba de uma doença, lesão ou limitação física e se repete no ambiente de trabalho. A Justiça analisa a gravidade, a duração das ofensas e a postura da empresa diante do que acontecia. Cada caso é julgado com base nas provas apresentadas.

o que acontece se a empresa disser que era só brincadeira?

A alegação de brincadeira não afasta sozinha a responsabilidade. O que se analisa é o efeito da conduta sobre a dignidade da pessoa, não a intenção declarada de quem falou. No caso do bancário chamado de "lerdinho", o banco alegou brincadeira entre colegas e mesmo assim foi condenado.

quanto se recebe de indenização por apelido ofensivo?

Não existe valor fixo nem tabela. No caso julgado pelo Tribunal Superior do Trabalho, a indenização foi de R$ 10 mil no primeiro grau e passou para R$ 20 mil, considerando a gravidade e a duração das ofensas. Esse valor vale para aquele processo específico e não serve de referência automática para outros casos.

o que vale para todo apelido ofensivo no trabalho?

Este texto comenta casos concretos que foram noticiados, cada um com suas provas e seu desfecho. Não há um resultado automático que sirva para toda situação, e nem todo caso noticiado tem valor ou desfecho divulgado. O que existe é um conjunto de pontos que costuma pesar na análise, como a repetição, a exposição pública e a omissão da empresa.

posso pedir indenização se nunca reclamei com o RH?

Sim, é possível. A obrigação de manter um ambiente respeitoso é da empresa, e a omissão dela pode ser reconhecida mesmo sem reclamação formal, especialmente quando as ofensas eram notórias no setor ou partiam da chefia. Ainda assim, a reclamação registrada por escrito ajuda muito como prova.

quais provas ajudam nesse tipo de caso?

Mensagens e e-mails salvos com data, protocolo de reclamação feita à empresa, relatórios e atestados médicos, laudo psicológico e o depoimento de colegas que presenciaram. No caso do bancário, foram as testemunhas que confirmaram que as ofensas eram constantes e que os superiores nada faziam.

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Conte o que vem acontecendo e vamos analisar juntos as provas e os caminhos possíveis no seu caso.

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Dr. Jorge Lopes BahiaOAB/RJ 159.842 · Advocacia trabalhista e previdenciária no Rio de Janeiro · artigos no Migalhas

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