13º, FGTS, férias com 1/3, hora extra e o acesso gratuito à Justiça: o que sai da sua vida se a CLT e a Justiça do Trabalho acabarem.
25 de agosto de 20268 min de leituraAtualizado por Dr. Jorge Lopes Bahia
O fim da CLT voltou ao noticiário depois de declarações do candidato Renan Santos, que defendeu extinguir a Consolidação das Leis do Trabalho e a Justiça do Trabalho. Nada disso mudou a sua vida hoje: a CLT continua valendo e a Justiça do Trabalho continua funcionando. Mas vale entender, com calma, quais direitos concretos estão dentro dessa discussão.
Fim da CLT: o que foi dito e o que mudou no seu contrato
Segundo as reportagens desta semana, em 18 de agosto de 2026, em evento da União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços (Unecs), em Brasília, Renan Santos afirmou que a CLT "já era" e defendeu acabar com a Justiça do Trabalho, transferindo os conflitos de trabalho para a Justiça Cível (o ramo comum do Judiciário, que julga contratos, dívidas e questões entre particulares). Em 24 de agosto de 2026, em debate na TV Bandeirantes, defendeu que o trabalhador negocie direto com o empregador e seja contratado por hora trabalhada, sem salário fixo. A Gazeta do Povo informou que essas propostas não constam no plano de governo registrado por ele no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).Ou seja: por enquanto é proposta de campanha, não é lei. Nenhum tribunal decidiu nada sobre isso. Seu contrato de trabalho, seu holerite e seus direitos seguem regidos pela legislação atual.
Renan Santos afirmou que a CLT "já era", defendeu o fim da Justiça do Trabalho e classificou o fim da escala 6x1 como "maluquice", prevendo "quebradeira da economia".Declarações noticiadas por Estadão, G1, InfoMoney, Poder360, O Tempo e Revista Fórum em 2026
Fim da CLT: item por item, o que sai do seu bolso
As reportagens não trazem um projeto de lei detalhado. O que existe é a proposta genérica de substituir o regime atual por contratação por hora, sem salário fixo, com negociação direta entre patrão e empregado. Num cenário assim, os direitos que hoje são obrigatórios por lei deixam de ser obrigatórios e passam a depender do que a empresa aceitar colocar no contrato. A tabela abaixo compara o que a lei garante hoje ao trabalhador com registro e o que ficaria em aberto.
Direito
Como é hoje, com carteira assinada
O que fica em risco num regime sem CLT
13º salário
Pagamento obrigatório todos os anos, proporcional aos meses trabalhados
Deixa de ser obrigação da empresa e passa a depender de negociação
FGTS
Depósito mensal feito pela empresa, com multa em caso de demissão sem justa causa
Sem depósito obrigatório, o trabalhador perde a reserva que ajuda no desemprego e na casa própria
Férias
Descanso anual remunerado, com o acréscimo de um terço previsto na Constituição
Eventual descanso pode virar período sem pagamento nenhum
Hora extra
Jornada com limite e pagamento com adicional quando o limite é excedido
Sem jornada fixa, não há hora "extra" a ser paga
Seguro-desemprego e INSS
Contribuição e acesso dependem da filiação e das contribuições previdenciárias exigidas
Contratação por hora ou como pessoa jurídica tende a deixar a proteção por conta do próprio trabalhador
Acesso à Justiça
Justiça do Trabalho, com regras próprias e possibilidade de isenção de custas para quem não pode pagar
Discussão iria para a Justiça Cível, e as reportagens não esclarecem como ficaria a gratuidade
Guarde istoExtratos do FGTS, holerites, comprovantes de férias e de 13º são a prova de que esses direitos existiram e foram pagos. Baixe e salve em um lugar só (nuvem, e-mail ou pendrive). Documento guardado hoje é o que sustenta qualquer cobrança amanhã.
Escala 6x1: por que ela está no centro da discussão
A escala 6x1 é aquela em que se trabalha seis dias e se folga um. Existe uma proposta de emenda à Constituição (PEC), tendo entre as idealizadoras a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), para reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais e garantir dois dias de descanso, o que na prática acabaria com a 6x1. Segundo as reportagens, a proposta já foi aprovada pela Câmara e aguarda análise no Senado. Renan Santos chamou o fim da 6x1 de "maluquice" e disse que causaria aumento de custo para as empresas, fechamento de estabelecimentos e perda de empregos.Quem sente essa escala na pele é o comércio, o supermercado, a limpeza, o telemarketing, o transporte e a segurança. Por isso a 6x1 virou o símbolo da briga: de um lado, quem quer menos horas e mais descanso; de outro, quem quer menos regra e mais negociação individual. As duas coisas estão sendo discutidas ao mesmo tempo, e o resultado de uma influencia a outra.
Sem Justiça do Trabalho, como você cobraria o que não recebeu?
Hoje, quem não recebeu o acerto da rescisão, hora extra ou FGTS entra com um processo na Justiça do Trabalho, que tem procedimento mais simples e prevê isenção de custas para quem comprova que não pode pagar. A proposta noticiada é levar esses casos para a Justiça Cível. As reportagens não esclarecem como ficaria a gratuidade nem se o trabalhador teria as mesmas facilidades. Na prática, discutir em pé de igualdade com o empregador depende de um caminho acessível e barato para reclamar. Quando esse caminho encarece, quem tem menos dinheiro tende a desistir antes.
Cuidado com o "vira PJ que você ganha mais"Aceitar sair do registro em carteira para virar prestador de serviço com CNPJ costuma vir com promessa de salário maior. O que desaparece junto é 13º, FGTS, férias com um terço, hora extra e proteção em caso de acidente. Se a empresa propor isso, peça tudo por escrito e não assine nada no mesmo dia. Guarde a proposta.
O que fazer hoje, antes de qualquer fim da CLT
Confira seu FGTSConsulte o extrato no aplicativo oficial do FGTS ou na Caixa. Compare com os meses trabalhados. Depósito faltando é direito seu e pode ser cobrado.
Confira sua carteira digitalNo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital ou no Meu INSS, veja se as datas de admissão, o salário e a função estão certos.
Anote sua jornadaRegistre dia, hora de entrada, hora de saída e folgas em um caderno ou no celular. Isso vale muito em discussão sobre hora extra e escala.
Peça documentos por escritoEspelho de ponto, recibos de pagamento e cópia do contrato. Peça por e-mail ou mensagem, para ficar registrado que você pediu.
Fale com o sindicato da sua categoriaÉ o sindicato que negocia convenção coletiva e acompanha as mudanças de escala e de jornada no seu setor.
Tire dúvida antes de assinarSe a empresa oferecer mudança de contrato, acordo ou rescisão, leia com calma e busque orientação antes de assinar.
Uma última observação honesta: o debate político pode, sim, mudar a lei no futuro, e nem sempre para o lado de quem trabalha. O que está na sua mão é documentar sua vida de trabalho. Quem tem extrato, holerite e registro de jornada guardado consegue discutir seus direitos em qualquer cenário. Quem não tem nada guardado fica dependendo da versão da empresa.
Extratos do FGTS de todo o período trabalhado
Holerites e comprovantes de depósito do salário
Cópia do contrato de trabalho e de qualquer alteração assinada
Espelhos de ponto, escalas e folhas de folga
Conversas com chefia sobre jornada, escala e pagamento
Termo de rescisão e comprovantes do acerto, se já saiu da empresa
Ainda não passa a valer. Até agora são declarações de campanha de um candidato à Presidência, feitas em agosto de 2026. Segundo a Gazeta do Povo, essas propostas não constam no plano de governo registrado por ele no TSE. A CLT continua em vigor.
quais direitos eu perco no FGTS com o fim da CLT?
O valor já depositado na sua conta do FGTS é seu. O risco apontado na discussão é sobre os depósitos futuros deixarem de ser obrigatórios. Por isso vale guardar os extratos de todo o período trabalhado.
tenho direito a 13º e férias mesmo com o fim da CLT em discussão?
Sim. Enquanto a lei atual está em vigor, o trabalhador com registro em carteira mantém 13º salário, férias com o acréscimo de um terço previsto na Constituição, FGTS e pagamento de hora extra. Debate político não revoga direito por si só.
o que acontece se a escala 6x1 for proibida?
A proposta em tramitação prevê jornada de 40 horas semanais e dois dias de descanso. Ela foi aprovada na Câmara e aguarda análise no Senado, segundo as reportagens. Se virar norma, as empresas terão que reorganizar escalas e folgas.
posso ser obrigado a virar PJ na empresa onde trabalho?
Mudança do contrato normalmente depende da sua concordância. Se houver pressão, guarde as mensagens, e-mails e propostas recebidas. Esses documentos são importantes para discutir depois se houve prejuízo aos seus direitos.
o que acontece se a Justiça do Trabalho acabar?
A proposta noticiada fala em levar os conflitos de trabalho para a Justiça Cível. As reportagens não esclarecem como ficaria a isenção de custas para quem não pode pagar. Hoje, os casos de trabalho continuam sendo julgados na Justiça do Trabalho.
Dúvida sobre o seu contrato ou sobre a sua escala?
Se você tem dúvida sobre jornada, escala 6x1, FGTS ou proposta de virar PJ, fale com o escritório e conte como está o seu caso.Falar com o escritório pelo WhatsApp